“Eu sei que essa vida contém / cenas de perplexidade / esse filme, pensando bem / é impróprio pra qualquer idade”
Eu estava ouvindo Maquinarama outro dia. É um dos meus discos favoritos e eu faço isso, sei lá, faz uns 20 e poucos anos, né? Lembrei que em 2012 escrevi um textinho sobre essa música no meu blog antigo. Fui lá reler. Ri um bocado, mas depois rever a Rakky do passado me botou pra pensar.
A Rakky de 2012 tinha chegado a uma conclusão: não é nada fácil viver. Você tem que fazer escolhas, tomar decisões, pensar, repensar, falar, convencer, trabalhar, estudar, ser responsável. Cada atividade traz consigo seus benefícios e malefícios, e escolher entre uma coisa e outra dá um trabalho danado. Ela tinha perdido a mãe fazia dois anos, tinha terminado a faculdade de jornalismo também há dois anos, estava trabalhando, morando em São Paulo, fazendo novos amigos, ocupando a cabeça com mil coisas. Literalmente, vivendo o tal filme impróprio pra qualquer idade.
A Rakky de 2026 leu isso e pensou: é, continua sendo verdade.
Tem umas mudanças - claro. Se você olhar pra tudo o que fez no passado e não tiver nada de novo pra acrescentar, as experiências da vida não contaram muito, não é mesmo? Preciso acrescentar que a gente tem que assumir mesmo a tal da responsabilidade de tocar o seu pandeiro / de você manter-se inteiro. Olhar pro mundo se desfazendo ao seu redor e, como herói do próprio umbigo, focar a atenção onde você consegue de fato resolver. Porque tem muita coisa nessa vida que não vai ser resolvida enquanto a gente estiver vivo, tem muita coisa que não vai ser resolvida do jeito que você quer e tem, ainda, muita coisa que você não tem que querer o jeito que vai ser resolvida porque simplesmente não é da sua conta.
E, ainda assim, tem muita coisa que vai ser resolvida enquanto a vida está aqui, que você pode resolver como quer, que é da sua conta, sim. Saber a diferença entre essas áreas e colocar seu esforço do lado certo é, talvez, o maior segredinho de todos - e o que anos e anos e anos de terapia, trouxeram pra frente da minha cara como um tapa na cara bem dado que vem e vai a cada 8 meses, coisa assim (porque terapia também é perceber que você vai voltar pros mesmos ciclos sim e tá tudo bem).
O filme impróprio pra qualquer idade é isso. A gente nunca vai estar completamente preparado para aquilo que a vida reservou. É apenas no contexto que definimos, da melhor ou da pior forma, que vamos seguir o caminho.
Assumir a responsabilidade de tomar essas decisões, de olhar para a vida e entender que cada ação tem uma reação e que consequências virão, de um jeito ou de outro, faz parte do viver.
Ou seja: a vida é injusta sim, amigos.
Mas é bonita, é bonita e é bonita.
As recomendaçõezinhas
1 — Skank — Maquinarama: essa canetada com as distorções dos anos 2000 e a métrica exagerada dos anos 70 me leva pra um lugar muito especial da minha adolescência, em que ter uma banda favorita brasileira era um negócio meio estranho na minha turma. Sempre me dava um arrepio ouvir o Samuel gritando os versos do Chico Amaral depois de ver que não houve meta, que a felicidade é deus que soletra só para entregar o refrão das cenas de perplexidade em seguida. O disco inteiro, de mesmo nome, tem clássicos extremamente populares como “Balada do Amor Inabalável”, “Três Lados”, “Ali”, “Canção Nortuna”, mas como fã-xiita (perguntem pro Samuel Rosa), essa faixa aqui tem um espaço especial no meu coração. Sou também fã AM (Antes do Maquinarama) com muito orgulho, mas entendo bem os fãs DM (Depois do Maquinarama), porque é óbvio que esse disco foi um divisor de águas.
2 — Vai morder barranco!: okay, acalmem-se, não vão literalmente morder barranco meus dois ou três leitores queridos. Eu usava essa expressão lindíssima e inventada provavelmente pela adolescente nervosa que existia em mim pra ir mandar meus amiguinhos da escola de ferrarem, de um jeitinho único (porque todo mundo se acha muito original aos 15 anos, né?). Enfim, também não estou mandando vocês irem se ferrar também, mas morder barranco me veio à cabeça hoje como um eufemismo para ir escalar uma montanha, fazer uma trilha, uma caminhada longa. Não precisa comer terra, é só sair ao ar livre mesmo e dar uns passinhos por uma área natural bonita perto da sua casa, na sua cidade. É um negócinho que libera umas paradinha legal na cabeça da gente. Só vai!
FLW, VLW!

